Escolha uma Página

29/05 às 15h – Sala 307 do Bloco O

Luiz Eduardo Soares
Departamento de Ciências Sociais da UERJ

Trecho da entrevista concedida a Revista Estudos Políticos acerca da trajetória acadêmica e intelectual e sobre o livro Justiça

Qual é a dramaturgia? Eu acho que não é absolutamente a dramaturgia que está no repertório dos grupos ou pelo menos de alguns grupos que estavam presentes, porque aquilo remete a cenas conhecidas e decodificadas a partir de uma perspectiva extremamente conservadora, que acaba invertendo papéis e tornando os velhinhos, velhinhos vítimas, quando eles são algozes, torturadores e assassinos. Então, se nós firmássemos a posição de que o país não pode tolerar a celebração da tortura, do assassinato e de um Estado repugnante, que nos custou tantos anos e tantas vidas etc. etc. Se nós formos capazes de vocalizar isso… Nós precisamos fazer. Precisamos fazer de uma maneira a sensibilizar a todos com a empatia dos que compartilham conosco e com os nossos valores. Nós não podemos criar uma fratura por erro de dramaturgia e por erro de metodologia. Isso é um equívoco político primário. É compreensível, entretanto. Se eu estivesse lá e se perdesse a cabeça, olhando algumas daquelas pessoas, agisse dessa forma precipitada e violenta, que fosse, eu compreenderia do ponto de vista individual, de qualquer ser humano. Como eu compreendo a vingança como um sentimento, é claro. Mas eu não aprovaria como metodologia de ação política, como cena a ser dramatizada. Isso não ajuda, isso não amplia, isso não focaliza este guia do nosso ponto, não deixa os lados claros. Por isso as mães da Praça de Maio tiveram tanto êxito, elas são um avesso disso tudo. Elas estão ali falando sobre os filhos que lhes foram roubados aos montes, elas falam como mães. Ali não tem como você dizer que eles são vândalos, de noção esquerdista. Aí enfim, não há como você descaracterizar ou desqualificar. Como é que a segurança pública entra nisso? A meu juízo, segurança pública é indissociável da própria idéia de Estado, Estado como um campo de direito. Se você pensar na cidade, de modo a circunscrever o seu poder, você tem classes sociais, tem Estado. Se você não sabe como suprimir o Estado e como suprimir as classes, é porque não está no nosso horizonte histórico. Então, se existe um Estado, ele tem que ser limitado, contido. E ele tem de conviver com o máximo de participação, de possibilidades de ampliação das lutas sociais, redução de desigualdades etc. Para que nós organizamos o Estado desta maneira, para que ele se torne mais compatível com um processo positivo do que é impositivo, nós temos de ordenar instituições. Um elemento fundamental é a legalidade, a produção de normas, a produção legislativa. Isso é crucial para que as expectativas, digamos, contratuais vigorem. Para isso, é preciso criar as tais leis que sejam aplicadas, que sejam cumpridas, que sejam garantidas. As instituições do Estado de missão repressiva cumprem um papel importante que seria, deveria ser, de garantir o respeito aos direitos conquistados, os direitos e liberdades conquistadas. Então, você entender que essas instituições que usam a força, deveriam usar a força de forma comedida, em benefício da cidadania, para impedir que o cidadãos sofram violações em seus direitos, em suas liberdades, você entenderia a dimensão positiva da repressão, uma palavra maldita em nosso vocabulário, equivocadamente maldita. Compreende-se a sua maldição evidentemente pelo histórico ao qual ela está associada. Mas se imaginarmos que uma criança nasceu e será violada, e que nos lançamos contra o violador pra proteger a criança, nós não diremos que estamos reprimindo o desejo desse indivíduo, diremos que estamos defendendo a vida, a integridade física, a integridade moral da pessoa.

A entrevista na íntegra.

Programação completa do Seminário do PPGCP em 2012